Usina de reciclagem

Reaproveitamento de resíduos de construção pode reduzir custos de aquisição de materiais aplicados na pavimentação de vias

Por: Tatiane Seoane

Nem toda demolição implica perda de materiais ou danos à natureza. Ao contrário, hoje em dia, com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), aumenta o número de prefeituras no Brasil que investem em usinas de reciclagem de entulhos, equipamento constituído geralmente de britadoras e recicladoras com capacidade de processamento de até 300 t/h. Além dos ganhos ambientais e políticos, um dos atrativos do investimento é a potencial redução de custo com aquisição de matéria-prima, já que ela passa a ser secundária, ou seja, fabricada a partir de resíduos sólidos de construção e demolição (RDC) - mais barata e com desempenho qualitativo equivalente aos materiais primários em aplicações específicas.

Essa foi a opção do município de Guarulhos, segunda maior cidade do Estado de São Paulo. Em 2003, a prefeitura detectou que havia muitos resíduos de construção civil lançados indevidamente em córregos, ruas e outros locais irregulares. A partir disso, o órgão público traçou um plano para deixar a cidade mais limpa e diminuir os custos com limpeza viária. O resultado foi a instalação de 16 Pontos de Entrega Voluntária (PEVs) e a construção de uma usina de reciclagem com área total de 10 mil m².

A usina abriga o laboratório tecnológico, onde são feitos testes com materia reciclado, e que contava, até pouco tempo atrás, com uma máquina recicladora de resíduos de construção. Recentemente, a prefeitura fez, por meio de licitação pública, um investimento de R$ 800 mil em um novo britador de mandíbulas - que compreende retroescavadeira, duas pás-carregadeiras e um apontador.

"Este valor inclui ainda três serviços: a entrega do equipamento, treinamento dos funcionários e assessoria técnica por um ano", explica Maria Salete Marreti, arquiteta responsável pela usina de reciclagem de entulho de Guarulhos. Para operar a máquina é necessário um responsável pelo recebimento do material e triadores, que são responsáveis pela limpeza do material.

Agora, com a operação das duas máquinas, a usina, que recebe 2 mil t de resíduos por mês, aumentou sua capacidade de produção de 15 t/h para 45 t/h e o número de pavimentações de ruas e avenidas com material reciclado. Nestas obras, a prefeitura diminuiu em 30% o custo com aquisição de material para pavimentação. Para os próximos anos, o objetivo é de chegar a uma economia de 70%.

Pequeno município
O custo com instalação e manutenção de infraestrutura para reciclagem de resíduos varia de porte e maquinários, sendo viável também aos pequenos municípios com verbas restritas. A cidade de Mauá, no Estado de São Paulo, por exemplo, investe R$ 13,5 mil mensais em sua usina de reciclagem. O custo refere-se à operação de uma máquina recicladora de concreto que, segundo Severino Manuel da Silva, secretário de serviços urbanos da Prefeitura de Mauá, reaproveita, a cada mês, cerca de 120 t de material.

"Com a usina, economizamos R$ 20 mil ao mês, já que deixamos de pagar R$ 82 por tonelada de entulho, vendidos, anteriormente, pelos aterros sanitários da cidade", conta Silva.

A usina de Mauá tem um espaço de 2 mil m², onde são armazenadas as 7 t de entulho que entram diariamente no local, vindas dos chamados Ecopontos - locais onde os moradores podem depositar os resíduos de construções e demolições.

Planejando a infraestrutura

Apesar das vantagens econômicas contabilizadas pelos municípios citados, nem sempre é viável, do ponto de vista financeiro, implantar uma usina municipal de reciclagem de resíduos. "Caso a prefeitura participe de empresa de economia mista, e esta esteja ligada à realização de pavimentações, pode ser interessante realizar um plano de negócio para a tentativa de viabilidade", pondera Paulo Bina, da consultoria Monobeton. De acordo com ele, uma alternativa para pequenos municípios é se consorciar a outras cidades.

No estudo de viabilidade, é indicado analisar, além do valor das máquinas, o custo com terreno, que deve estar, preferencialmente, em área de recuperação ambiental ou de solo de baixíssima capacidade de suporte. Aos cálculos somam-se, obviamente, os custos de instalação da usina, compostos, em geral, por: instalações elétricas (se há disponibilidade ou não no local ou se é necessária extensão pública); sistema de despoeiramento (se a área for urbana ou industrial); execução de pavimentação e construção de pequenas edificações administrativas, entre elas, laboratório de controle (para certificação do material para uso indiscriminado).

"Antes de fazer o investimento em uma usina de reciclagem e definir os equipamentos, é essencial realizar pesquisas de mercado sobre os volumes de geração de entulhos, tipo de resíduos a serem processados e os produtos finais a serem comercializados ou entregues na obra", comenta Paulo Bina.

Com este estudo é possível identificar os tipos e as graduações de tamanho dos materiais a serem processados e, a partir disso, determinar os equipamentos necessários. "As características dos materiais a serem reciclados são determinantes para aferição dos custos do processo e dos volumes processados", comenta. Assim, se a grande incidência for de material cerâmico, os equipamentos podem ser mais leves e de alta produção, para que não ocorra o esmagamento do material devido a sua baixa resistência, à grande formação de pó e à variedade de bitolas. Ao contrário, se a maior quantidade for de peças estruturais com armaduras, o equipamento deve ser do tipo que destrói o concreto e remove o aço das estruturas.

Os equipamentos de duas telas, simples e de baixa capacidade de produção, podem custar entre R$ 30 mil e R$ 50 mil, com exceção dos equipamentos de movimentação, como das pás-carregadeiras e escavadeiras. Enquanto que uma máquina de quatro telas, com escavadeira hidráulica e peneira vibratória para a separação dos materiais, pode valer até R$ 100 mil.

Produtos finais
A maior parte dos resíduos de construção e demolição são materiais nobres em estruturas de pavimentação por apresentarem boa resistência mecânica e baixa expansão, já que são constituídos originalmente de materiais inertes como argamassa, concreto e material cerâmico, que por sua vez, se constituem de minerais. "Podem, portanto, serem processados e se tornarem materiais granulares aplicáveis à constituição de reforços de subleito, sub-bases e bases de pavimentos com grandes vantagens para o desempenho das estruturas dos pavimentos das rodovias", explica Firmino Sávio Vasconcellos de Souza, consultor em pavimentação na Fresar.

Estes resíduos sólidos, no entanto, precisam quase que invariavelmente, de estabilização para se prestarem às funções especiais dos materiais de pavimentação. Esta estabilização consiste da utilização de qualquer processo de natureza física, físico-química, química ou mecânica (natural ou artificial) para alterar as propriedades e melhorar as características quanto à aplicação em engenharia (densidade, resistência, sensibilidade às variações climáticas etc.) dos materiais e garantir a permanência dessas propriedades ao longo do tempo (durabilidade).

Nos projetos de Guarulhos, as novas pavimentações utilizam 50% de material reciclado. "Os resultados são totalmente satisfatórios", comenta Adailton Saraiva de Barros, gerente de infraestrutura viária do Proguaru. "Não temos aquele efeito final de pele de jacaré", completa. O objetivo é, até os próximos meses, a utilização de 70% de resíduos reciclados. Contudo, "um projeto de pavimentação com 100% de material reutilizado exige mais testes tecnológicos e a cooperação por parte do solo", conta Saraiva.

Reciclagem: como funciona

Os resíduos de construção civil, armazenados no pátio da usina de reciclagem, são recolhidos com pá-carregadeira e transportados ao britador, onde passam por um funil chamado moega. A partir disso, começa o processamento e compressão do material, seguida da triagem. Neste passo, são retirados os chamados materiais contaminados, como madeira, gesso e plástico.

Uma vez fracionados, os resíduos são encaminhados para uma peneira, que separa o material de acordo com o tamanho do grão. Esta última etapa, no caso de produção de bica-corrida (bica sem separação granulométrica), é dispensável. Em suma, a reciclagem se faz com britadores que trituram os resíduos e os fragmentam, com variações granulométricas que variam segundo indicado:
 Areia --- 0/4,8 mm
 Pedra 1 --- 4,8/9,5 mm
 Pedra 2 --- 9,5/25 mm
 Pedra 3 --- 25/50 mm
 Graúda --- > 50 mm
Com os materiais reciclados por trituração - até os tamanhos de interesse de sua reutilização -, os resíduos são então processados com grande volume de água, para a retirada de maior quantidade possível de areias finas, médias, grossas, pedrisco e britas diversas, todos bem limpos, e de elevado valor agregado ao produto.

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